Contextos




 Introdução

A bíblia sagrada, diferente do que muitos pensam, não é uma caixinha de surpresas, isso para aqueles que realmente buscam estudá-la tentando absorver o mais profundo conhecimento possível. Existe uma diferença muito grande entre a pessoa que estuda de fato a bíblia, e quem apenas lê, ou a ouve. A pessoa que apenas sabe algo sobre ela, quando se depara com determinados versículos, se pergunta: “O que este verso quer dizer para mim”. Já quem realmente a estuda, buscando um bom conhecimento da mesma se pergunta: “O que este verso queria dizer para aquele a quem foi escrito, ou para o tempo de sua escrita”. É notório, que há um grande abismo aí, diante disso, podemos compreender que os versículos bíblicos, podem ser encarados tanto pela lógica, como pelo correto, vamos compreender melhor isso.


Como exemplo, vamos lembrar de que Davi matou Golias; os versos
Bíblicos dizem isto, e pela lógica de sua escrita, de fato Davi matou o gigante Golias, isto está correto? Sim, Davi matou Golias! Mas nem sempre a lógica está correta, nisso, não devemos mais ir pela lógica, mas pelo correto. Vamos para outro exemplo. Em Apocalipse 6:5, fala do cavalo preto com seu cavaleiro segurando uma balança, segundo a escatologia, esta é a fome, para os tempos vindouros, a lógica do versículo, mostra que existirá um cavaleiro com uma balança nas mãos, montado em um cavalo preto, trazendo fome para a terra, mas a lógica está certa? Não, não haverá nenhum cavalo preto com seu cavaleiro segurando uma balança, passeando pela terra trazendo fome, isso foi apenas o que João viu em sua visão, o que haverá, é simplesmente a fome; aqui vemos que a lógica não é o correto. Então, há vezes que a lógica é o correto, e há vezes que não, ou seja, nem sempre a lógica dos versículos bíblicos é o correto.

Há vários contextos para compreendermos a bíblia, há o contexto teológico, o literário, o alegórico, o figurativo, e outros, o que vamos abordar aqui são apenas três, e de muita importância para o bom aprendizado da palavra de Deus, a saber: O contexto textual, o contexto original, e o contexto histórico.

1.      O contexto textual

Ler a bíblia e aplicar em nosso dia-dia é muito bom, mas temos de lê-la, com cautela, procurando em oração, a perfeita sabedoria do Senhor.
Um verso bastante atraente que podemos usar aqui é o que se encontra em Ageu.

"E farei tremer todas as nações, e virá o Desejado de todas as nações, e encherei esta casa de glória, diz o SENHOR dos Exércitos." Ageu 2:7 (ARC)

Muitos fazem uma confusão muito grande neste versículo, tanto pregadores, como cantores, ligando o “desejado das nações”, ao próprio Cristo, encarando como se este “desejado das nações, fosse Jesus. Mas isto acontece por não se deterem ao contexto textual da palavra de Deus; vamos ver alguns versos antes.

Quem há entre vós que, tendo ficado, viu esta casa na sua primeira glória? E como a vedes agora? Não é esta como nada diante dos vossos olhos, comparada com aquela?Ageu 2:3

Neste verso vemos algo relacionado a valores materiais, já que o Senhor fala da glória da casa, e de como ela estava agora, ou seja, de matéria visível, agora vamos ao verso 8.
Minha é a prata, e meu é o ouro, disse o Senhor dos Exércitos. Ageu 2:8

Pronto, está lógico, o desejado das nações, não é Jesus, mas o dinheiro, ou valores equivalente, para compreendermos melhor isso, vamos ver este mesmo verso de Ageu, o 7 do capítulo 2, em outras traduções.

"Farei tremer todas as nações, que trarão para cá os seus tesouros, e encherei este templo de glória, diz o Senhor dos Exércitos". Ageu 2:7 (NVI)

"Farei tremer todas as nações, e as coisas preciosas de todas as nações virão, e encherei de glória esta casa, diz o Senhor dos Exércitos." Ageu 2:7 (ARA)

Aprendemos então que, o contexto histórico, é uma maneira muito importante no qual devemos nos deter, para compreender os versos da bíblia sagrada, para isso, não podemos ficar isolados a um versículo, mas ler todo o contexto correspondente a passagem, sendo o próprio capitulo, ou mais alguns capítulos vizinhos.

2.      O contexto original

Aqui está algo mais difícil, geralmente os pregadores, e poucos mestres, se detêm a isso, pois para navegar neste tipo de contexto, devemos buscar na língua original, a colocação e significado das palavras que compõem o versículo, por exemplo.

E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso. Lucas 23:43

Este verso faz parte de um contexto no qual se associa em um dialogo, dois malfeitores e Jesus, cada um em sua cruz, após um deles se arrepender, Jesus profere este verso, agora, o que compreendemos com isso? Que Jesus estaria naquele mesmo dia com o malfeitor arrependido no paraíso.

Mas vamos encarar pelo contexto original do versículo.

Em primeiro lugar, a palavra “que”, substituindo uma vírgula, não consta no escrito original do verso, a saber, no grego, essa palavra, foi inserida pelos tradutores, para termos uma melhor compreensão do verso, o que por sua vez, feriu o original, dando-nos um sentido diferente do verso.

Em segundo lugar, no grego, não existia espaço como no português, logo o verso correto ficaria assim: “Emverdadetedigoquehojeestaráscomigonoparaíso”.

Em terceiro lugar, compreendemos que a vírgula tem um poder enorme, de acordo com o lugar de sua inserção, por exemplo. Se alguém escreve “EU NÃO ACREDITO EM DEUS”, compreende-se que o autor da frase não acredita em Deus, mas se esse alguém insere a vírgula entre as palavras “NÃO”, e “ACREDITO”, muda-se o propósito da frase, ficando assim: “EU NÃO, ACREDITO EM DEUS”, trazendo então o propósito do autor da frase, de manifestar que ele, diferente de outros, acredita sim em Deus.
Daí começamos então a entender o verso de Lucas, no contexto original, como em grego tudo era junto, e a palavra “que”, substituindo uma vírgula foi inserida pelo tradutor, ficando: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”; tirando a palavra “que” e acrescentando a vírgula em seu lugar ficaria “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso”; mas como no grego era tudo junto não tendo espaços e nem vírgula, bem pode ser que seu tradutor a inseriu no lugar errado, mudando ela de lugar, colocando-a entre as palavras “hoje” e “estarás”, ficando: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso”. Assim, vemos uma idéia diferente do que o tradutor queria dizer. A primeira vista, parece complicado, mas ao lermos e relermos esse tópico, tudo fica mais claro.

Mas então, o que se deve ensinar que Jesus estaria com ele naquele mesmo dia no paraíso? Não! Então devemos ensinar que Jesus não estaria com ele naquele mesmo dia no paraíso? Também não! O que se deve ensinar, é que talvez Jesus estivesse com ele naquele mesmo dia no paraíso, talvez não. O contexto original não nos permite definirmos uma resposta fixa a respeito disso, porém em outros versículos, sim.

3.      O contexto histórico

Esse tipo de contexto é um pouco mais simples, já que neste, paralelamos os versos bíblicos, a história vinculada a ela ou aos tempos dela. O verso que vamos usar aqui, como exemplo, é um verso de Gênesis.

E disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de dar à luz; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. Gênesis 16:2

No contexto, sabemos que Sarai era estéril, e Abrão, tinha a promessa de um filho, como isso, na lógica, era impossível, Sarai tomou a atitude de conceder sua serva Agar apara coabitar com seu marido Abrão, para ter um filho com ela. Na vista da maioria dos pregadores, aqui está um tipo de descrença em Deus, ou uma premeditação negativa, mas agora, vamos para o contexto histórico.

Em 1901 na região da antiga Mesopotâmia correspondente a cidade de Susa, atual Irã, foi encontrado um monumento monolíticotalhado em rochade diorito, sobre o qual se dispõem 46 colunas de escrita cuneiforme acádica, com 282 leis em 3600 linhas. Segundo estudos, essas leis são contemporâneas de Abrão. E neste código, os contratos de casamento, estabeleciam a obrigação de prover uma serva para o marido, caso a mulher não pudesse gerar filhos. Sendo assim, não podemos ensinar, julgando ser a ação de Sarai e Abrão uma falta de fé, ou uma premeditação negativa, mas sim, o cumprimento de uma lei, vigorante em sua época.

Através do contexto histórico, podemos compreender muitas outras coisas a respeito da palavra de Deus. Este contexto, como os outros, é muito importante para um bom e correto aprendizado da palavra de Deus.

Conclusão

Devemos sim, aprender a palavra de Deus, mas de maneira correta, para isso, devemos acatar todas as ferramentas que a teologia nos dispõe, respeitando a originalidade da palavra, e nunca se esquecendo de pedir a direção do Espírito Santo, para que nos guie na verdade divina.

Claudio Martins
Contextos Contextos Reviewed by Claudio Martins on outubro 08, 2014 Rating: 5

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